As ovelhas encantadas

História assustadora Celta

Dia após dia, Feredach, o rei do povo de Sorcha, recebia cada vez mais súditos das montanhas fazendo relatos incoerentes sobre um terrível perigo que assolava a região. Vinham assustados, de olhos arregalados pelo que tinham visto e ouvido. Falavam de ovelhas fantasmas que estavam assombrando e levando muitas pessoas à morte.

O rei convocou seus druidas, uma espécie de sacerdote, que acumulava funções de educador e juiz, para fazerem vigílias e buscarem conhecimento nas estrelas, mas ao final de alguns dias eles disseram:

– Não cabe a nós descobrir os desígnios dos imortais. Esses rebanhos encantados só aparecem aos homens no decorrer de eras. Não conseguimos descobrir mais nada.

– Meu povo definha de medo, não há nada para apaziguar a ira dos deuses, ou descobrir o que fizemos de errado? – falou o rei.

– Voltaremos a vigília, esperamos descobrir alguma coisa.

O rei, pensativo, olhou para a multidão ajoelhada e lhes disse:

– O que exatamente viram? Me contem.

Então um deles falou:

– Primeiro, ouvimos de nossas casas, ao anoitecer, o balido de um grande rebanho e seguimos os sons para ver onde estavam. Então fomos pegos por uma densa neblina que nos fez perder o caminho, muitos de nós foram levados até aos altos penhascos e de lá caíram no mar. Depois disso ouvimos o som de passos do que parecia ser uma grande multidão que nos perseguia, no desespero muitos foram pisoteados e dessa forma morreram. Todas as noites esses sons ecoam na montanha, as pessoas têm medo de entrar na floresta para caçar e nossos rebanhos fugiram. Estamos morrendo de fome.

O rei, comovido, balançava de um lado para o outro no trono, tentando imaginar o que poderia fazer para ajudar o seu povo.

Depois de muito pensar, falou:

– Quando o próximo dia raiar, subirei até o alto da montanha com os druidas, levaremos oferendas de ouro, prata e pedras preciosas, juntos pediremos ao deus do mar para que nos salve.

Os súditos deixaram o salão real, mas antes, cada um deles beijou o manto real e agradeceu ao rei pela sua coragem.

Depois que todos saíram, o rei continuou sentado, meditando sobre o que pretendia fazer.

De repente, entrou no salão um homem que disse:

– Salve, ó Rei Feredach! Gostaria de falar com o senhor.

O rei ergueu o olhar e viu um homem com um traje belíssimo, colorido como a pele de uma serpente marinha. Ao redor da cintura, uma serpente dourada se enrolava como cinto, enquanto um manto verde, com os tons reluzentes cobria seus ombros e arrastava no chão. Seus cabelos eram de um dourado avermelhado e lustroso adornados por uma coroa de algas. Seu rosto era jovem, bonito e acolhedor, com olhos claros. Era mais alto que qualquer homem em Sorcha e trazia na mão um par de imensas tesouras de tosquia, afiadas e brilhantes.

– Quem é você? E como passou por meus guardas lá embaixo? Ninguém vem à minha presença sem que eles o anunciem. – falou o rei.

– Nenhum de teus guardas me viu, porque me fiz invisível aos seus olhos.

– Qual é o seu nome?

– Sou um andarilho, meu nome não importa, o que importa é que não tenho medo e vim ajudar o seu povo. Vou tosquiar o rebanho fantasma e salvar seus súditos dessa maldição.

– Será a tua morte, pois ninguém conseguiu encontrar o rebanho e quando chegam perto morrem perdidos e assustados.

– Eu sei onde o rebanho se esconde. O senhor deverá permanecer no trono até que eu volte.

No dia seguinte o homem voltou ao salão real carregando sacos cheios da mais fina e branca lã que o povo de Sorcha já havia visto.

Ele colocou os sacos à frente do rei e disse:

– A praga afastou-se do seu povo. Os balidos do rebanho encantado não os molestará mais. Com esta lã vocês deverão tecer os mais belos mantos que servirão de proteção contra doenças e nas guerras. Esta lã foi tosquiada das Ovelhas de Manannan, que vagam invisíveis por muitas montanhas do mundo. Quando são tosquiadas a maldição se transforma em bênçãos para a população do local onde aparecem.

– Não vá embora, fique conosco e seja meu conselheiro.

Então o rei segurou em sua capa e sua mão fechou-se no ar.

Neste momento os druidas falaram:

– Este é o deus do mar, que veio para nos ajudar!

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