O Califa de Bagdá

História persa

Há muitos anos, na cidade de Bagdá, governava o califa Harun al-Rashid, um homem conhecido por sua sabedoria e por gostar de conhecer de perto a vida de seu povo.

Certa noite, o califa estava sentado em seu palácio, quando seu fiel vizir, Giafar, entrou no salão.

— Majestade, hoje é o dia em que o senhor costuma sair disfarçado para observar como vivem os habitantes de Bagdá.

— É verdade! Como pude me esquecer?

Pouco depois, os dois trocaram suas roupas reais por simples vestimentas de comerciantes e saíram do palácio por uma passagem secreta. Caminharam pelas ruas, atravessaram o rio Eufrates e observaram o movimento da cidade. Tudo parecia tranquilo. Quando já estavam voltando para o palácio, encontraram um velho cego sentado sobre uma ponte, pedindo esmolas.

O califa colocou uma moeda em sua mão.

— Que Deus lhe dê saúde — disse.

Mas, para sua surpresa, o homem segurou sua mão e falou:

— Meu senhor, agradeço a sua bondade. Mas, antes de aceitar sua moeda, peço que me dê um pequeno golpe no ombro.

O califa ficou espantado.

— Um golpe? Por que eu faria isso?

— É uma promessa que fiz. Não posso receber uma esmola sem antes ser castigado.

O califa não entendeu nada. Mesmo assim, para não contrariar o pobre homem, deu-lhe um leve tapinha no ombro.

Depois, afastou-se com Giafar.

— Há algo muito estranho nessa história — comentou. — Quero descobrir o motivo.

No dia seguinte, o califa mandou chamar o mendigo ao palácio.

Quando chegou diante do trono, o homem se curvou.

— Qual é o seu nome?

— Baba-Abdalla, Majestade.

— Baba-Abdalla, ontem você fez um pedido muito estranho. Quero saber o porquê. Conte-me toda a sua história.

O velho respirou fundo e começou a contar.

Muitos anos antes, Baba-Abdalla era um homem rico. Possuía uma grande caravana de camelos e viajava por diferentes lugares, negociando mercadorias.

Certo dia, durante uma de suas viagens, encontrou um dervixe, um homem que vivia de maneira simples e dedicada à vida espiritual.

O dervixe contou-lhe que conhecia uma caverna escondida no deserto. Dentro dela havia tesouros maravilhosos: moedas de ouro, pedras preciosas e joias.

Baba-Abdalla ficou encantado. Os dois foram até a caverna e encontraram exatamente o que o dervixe havia descrito.

— Podemos dividir tudo igualmente — propôs o dervixe.

Baba-Abdalla concordou, mas quando começaram a sair da caverna, o dervixe pegou também uma pequena caixinha.

— O que há aí dentro? — perguntou Baba-Abdalla.

— Uma pomada mágica.

— Para que serve?

O dervixe explicou:

— Se você colocar um pouco dela sobre o olho esquerdo, poderá enxergar os tesouros escondidos debaixo da terra. Mas, se colocar no olho direito, ficará cego para sempre.

Baba-Abdalla achou aquilo muito interessante.

No caminho de volta, porém, outra coisa começou a ocupar seus pensamentos.

Ele olhou para os camelos do dervixe.

— Você tem muitos camelos. Poderia me dar alguns?

O dervixe, que era generoso, concordou.

Pouco depois, Baba-Abdalla pediu mais alguns. O dervixe novamente aceitou.

E assim continuou até que Baba-Abdalla ficou com todos os camelos, mas ainda não estava satisfeito.

— E o ouro? Você não precisa de tanto. Dê-me também uma parte maior!

O dervixe percebeu que a ganância havia tomado conta do companheiro. Mesmo assim, entregou-lhe sua parte do ouro.

Quando tudo parecia resolvido, Baba-Abdalla lembrou-se da pequena caixa.

— Quero a pomada!

— Ela não tem valor para você — respondeu o dervixe. — E já lhe expliquei que é perigosa.

— Quero experimentar! — insistiu Baba-Abdalla.

O dervixe tentou convencê-lo a desistir, mas ele não aceitou. Então, colocou uma pequena quantidade da pomada no olho esquerdo de Baba-Abdalla.

De repente, o homem arregalou os olhos. Ele conseguia enxergar riquezas escondidas por toda parte!

— Ouro! Pedras preciosas! Tesouros por todos os lados! — gritava.

Quanto mais tesouros enxergava, mais queria. Sua ganância parecia não ter fim.

— Coloque a pomada no outro olho também! — ordenou.

— Não posso — respondeu o dervixe. — Eu avisei o que acontecerá.

— Quero enxergar ainda mais! Faça isso!

O dervixe tentou impedir aquela loucura, mas Baba-Abdalla tomou a pomada e passou em seu outro olho.

Na mesma hora ele ficou completamente cego. O dervixe partiu levando os camelos e o tesouro que havia recebido e Baba-Abdalla ficou sozinho no deserto.

Naquele momento, compreendeu uma terrível verdade, ele já possuía riquezas suficientes para viver feliz, mas sua ganância fez com que perdesse tudo. Depois de muito sofrimento, conseguiu retornar a Bagdá. Sem dinheiro, sem camelos e sem enxergar, passou a viver de esmolas.

Foi então que fez uma promessa:

— Nunca mais aceitarei uma moeda sem antes receber um pequeno castigo. Quero me lembrar todos os dias do erro que cometi.

O califa Harun al-Rashid ficou em silêncio por alguns instantes depois de ouvir a história.

Então disse:

— Baba-Abdalla, você já pagou por seu erro durante muitos anos. Não precisa continuar se castigando, porém, quero que sempre se lembre que a maior riqueza não é possuir tudo o que desejamos. É saber valorizar aquilo que já temos.

O califa ordenou que Baba-Abdalla recebesse uma pensão para que pudesse viver com dignidade e nunca mais precisasse pedir esmolas.

***

Apoie esse site

Clique aqui para ler a história A lenda do Muiraquitã

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *