Lenda indígena
Há muito tempo, quando a floresta amazônica ainda guardava mistérios que os seres humanos mal conseguiam imaginar, duas tribos viviam próximas umas das outras. Apesar de compartilharem a mesma floresta, os povos eram rivais e não permitiam que seus jovens se aproximassem.
Mas o coração nem sempre obedece às regras.
Entre as duas tribos viviam dois jovens que se apaixonaram. Eles sabiam que suas famílias jamais aceitariam aquele amor e, por isso, encontravam-se escondidos na mata, principalmente nas noites de lua cheia.
Sob a luz prateada de Jaci, a Lua, eles conversavam, riam e faziam planos para o futuro.
Certa noite, porém, enquanto conversavam perto de uma grande árvore, ouviram passos entre as folhas.
Guerreiros da tribo rival haviam descoberto o esconderijo.
Os jovens tentaram fugir, mas foram cercados. O rapaz ficou diante da amada para protegê-la e, durante a confusão, acabou sendo atingido por uma flecha.
Ela se ajoelhou ao lado do amado e chorou durante toda a noite.
— Não vá… fique comigo… — repetia, como se suas palavras pudessem fazê-lo voltar.
Os dias passaram, mas a jovem não quis deixar aquele lugar. Permanecia na mata, chamando pelo nome do rapaz e lembrando-se dos momentos felizes que haviam vivido.
Não queria comer nem beber. Seu coração estava tão cheio de tristeza que parecia não haver espaço para mais nada.
Do alto do céu, Jaci observava aquela dor e intercedeu por ela a Tupã.
Compadecido de sua dor, Tupã fez descer sobre ela uma luz prateada.
A jovem sentiu uma brisa suave tocar seu rosto. Aos poucos, seu corpo começou a se transformar. Seus braços tornaram-se asas, seus cabelos transformaram-se em penas castanhas e seus olhos ganharam um brilho forte e atento.
Quando percebeu, já não era mais uma jovem humana. Era uma bela ave.
A nova ave abriu as asas e subiu até o galho mais alto de uma grande árvore. De lá, olhou para a floresta e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu o vento acariciar seu corpo.
Mas seu coração ainda guardava a lembrança daquele que havia amado.
Então começou a cantar.
— Ah-cau-ã! Ah-cau-ã!
Seu canto atravessou a mata e ecoou entre as árvores.
O Acauã tornou-se uma das aves mais misteriosas da floresta. Seu canto forte e diferente chamou a atenção dos povos que viviam na Amazônia e no sertão, que passaram a atribuir diversos significados à sua presença.
Como o Acauã é conhecido por caçar serpentes, algumas pessoas passaram a considerá-lo um protetor da floresta, capaz de enfrentar animais perigosos e afastar o mal.
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