História árabe
Há muitos séculos, quando grandes caravanas atravessavam os desertos da Arábia, vivia um menino chamado Antar.
Ele cresceu entre tendas, cavalos e dunas douradas. Era forte, corajoso e tinha um dom muito especial: gostava de transformar seus sentimentos em lindos poemas.
Quando o vento soprava pelo deserto, parecia até levar seus versos para bem longe.
Mas Antar também conhecia a tristeza.
Algumas pessoas da tribo diziam que ele jamais poderia ser um grande guerreiro por causa de sua origem. Em vez de enxergarem seu bom coração, olhavam apenas para aquilo que julgavam diferente.
Antar nunca respondia com raiva, preferia responder com coragem.
Na mesma tribo vivia Abla, uma menina inteligente, curiosa e muito gentil.
Ela adorava ouvir as histórias e os poemas de Antar.
— Quando você fala, parece que consigo enxergar o deserto florescendo — dizia ela.
Os dois cresceram como grandes amigos, compartilhando sonhos e admirando o céu cheio de estrelas.
Com o passar dos anos, Antar percebeu que gostaria de passar toda a vida ao lado de Abla.
Mas o pai da jovem não acreditava que ele fosse digno de formar uma família com ela.
Então lançou um enorme desafio.
— Se deseja provar seu valor, encontre três mil camelos vermelhos, os mais raros de toda a Arábia.
Todos acreditaram que aquilo era impossível, mas Antar apenas sorriu.
— Nenhum caminho é longo demais quando o coração sabe para onde está indo.
Logo ao amanhecer, partiu pelo deserto.
Durante muitos meses atravessou montanhas de areia, encontrou oásis escondidos e cruzou terras onde quase ninguém havia chegado.
Pelo caminho conheceu pessoas de muitas tribos. Sempre que alguém precisava de ajuda, Antar parava.
Consertou carroças quebradas. Ajudou viajantes perdidos a encontrar o caminho. Protegeu crianças durante uma tempestade de areia. Dividiu sua água com quem tinha sede.
E, todas as noites, escrevia poemas sobre esperança, amizade e coragem. Suas palavras começaram a viajar de aldeia em aldeia.
Muito antes de conhecerem Antar, as pessoas já conheciam seus poemas.
Um dia, um velho chefe de uma tribo distante o recebeu com um grande sorriso.
— Ouvi dizer que você nunca deixa ninguém sem ajuda e que suas palavras fazem nascer esperança até nos dias mais difíceis.
Antar abaixou a cabeça, um pouco envergonhado.
— Apenas faço o que acredito ser certo.
O velho apontou para um enorme rebanho. Ali estavam os famosos camelos vermelhos.
— Um homem que espalha bondade vale mais do que qualquer tesouro. Leve os camelos. Eles serão um presente para quem soube conquistar o respeito das pessoas.
Quando Antar voltou para casa, todos ficaram admirados.
Mas não eram os camelos que chamavam mais atenção.
Era a quantidade de amigos que haviam viajado com ele para agradecer sua generosidade.
O pai de Abla finalmente compreendeu que havia julgado Antar sem conhecer seu verdadeiro valor.
Naquela noite, diante de toda a tribo, ele disse:
Existem pessoas que nascem em famílias importantes. Outras se tornam importantes pelas escolhas que fazem. Hoje aprendi que Antar pertence ao segundo grupo.
Abla sorriu e Antar também.
E, enquanto as estrelas brilhavam sobre o deserto, ele recitou mais um de seus poemas.
Dizem que o vento levou aqueles versos por toda a Arábia.
E que, ainda hoje, quem escuta o vento passando entre as dunas pode imaginar que ele continua contando a história do guerreiro que venceu não apenas com sua espada, mas também com seu coração.
Conselho de vó: A verdadeira grandeza não depende de onde nascemos, nem do que os outros dizem sobre nós. Ela aparece em nossas escolhas, em nossas atitudes e na bondade que espalhamos pelo caminho.
***
