Jack e o Desafio da Princesa

História de Hans Christian Andersen

Há muito tempo, em um reino cercado por colinas verdes e campos floridos, vivia um fazendeiro que tinha três filhos.

Os dois mais velhos estudavam sem parar. Conheciam muitas palavras difíceis, decoravam livros inteiros e adoravam mostrar tudo o que sabiam.

O caçula chamava-se Jack.

Ele não gostava de decorar discursos nem de impressionar ninguém.

Preferia observar os passarinhos, conversar com os animais e descobrir coisas curiosas durante seus passeios pelo campo.

Por isso, muita gente dizia que Jack nunca seria tão inteligente quanto os irmãos.

Certo dia, um mensageiro chegou à aldeia trazendo uma notícia.

A princesa havia decidido escolher um companheiro que soubesse conversar com alegria e inteligência.

Os dois irmãos ficaram animados. Durante dias estudaram mapas, poesias, leis, história, matemática e até palavras em outras línguas.

— Agora ninguém poderá nos vencer! — disseram.

O pai lhes deu dois belos cavalos.

Jack também quis participar.

— Pai, posso ir?

O fazendeiro olhou para ele e respondeu:

— Meu filho, você não preparou nenhum discurso.

— É verdade. Mas posso levar comigo aquilo que encontrar pelo caminho.

O pai riu, mas deixou. Como os cavalos já haviam partido, Jack montou em seu velho bode, que era muito esperto e adorava aventuras.

Enquanto seguia pela estrada, encontrou um corvo caído.

— Que penas bonitas! Talvez ainda possam servir para alguma coisa.

Guardou-o cuidadosamente.

Mais adiante encontrou um tamanco velho.

— Alguém certamente o perdeu, vou levá-lo comigo.

Depois viu uma poça de barro muito macio.

— Humm… Nunca se sabe quando um pouco de barro pode ser útil.

Encheu um pequeno pote e continuou a viagem.

Quando chegou ao castelo, havia uma enorme fila de pretendentes. Todos ensaiavam discursos complicados. Uns falavam tão baixo que mal conseguiam ouvir a própria voz. Outros repetiam palavras difíceis sem parar.

Quando entravam no salão real, porém, ficavam tão nervosos que esqueciam tudo. A princesa agradecia educadamente e chamava o próximo. Finalmente chegou a vez de Jack.

Assim que entrou, sentiu um delicioso cheiro vindo da cozinha.

— Que aroma gostoso! — disse ele.

A princesa sorriu.

— Hoje estamos preparando um grande almoço para o reino.

Jack abriu um sorriso.

— Então poderiam assar esse corvo!

Os conselheiros olharam uns para os outros sem entender.

A princesa começou a rir.

— E onde você pretende assá-lo?

Jack levantou o tamanco.

— Aqui! É uma panela um pouco diferente, mas pode funcionar.

A princesa achou tanta graça que resolveu continuar a brincadeira.

— E o tempero?

Jack mostrou o pequeno pote.

— Trouxe um pouco de barro. Não serve para comer, mas serve para lembrar que até as coisas simples podem ser úteis, dependendo da imaginação.

A princesa bateu palmas.

— Gostei da resposta!

Então fez outra pergunta:

— Diga-me, Jack, você não ficou nervoso como os outros?

O menino pensou por um instante.

— Um pouco. Mas descobri que conversar é muito mais fácil quando a gente fala com sinceridade, em vez de tentar parecer mais inteligente do que realmente é.

O rei sorriu. Os sábios da corte também sorriram.

A princesa levantou-se e disse:

— Muitos vieram mostrar tudo o que haviam decorado. Você foi o único que mostrou quem realmente é.

Dias depois, houve uma grande festa no castelo.

Jack tornou-se o companheiro da princesa e passou a ajudar o rei.

Sempre que surgia um problema difícil, ele escutava todas as pessoas antes de decidir.

Descobriu que boas ideias podem nascer dos livros, mas também podem surgir durante uma caminhada, observando um pássaro, um velho tamanco ou até um punhado de barro.

E foi assim que aquele menino simples mostrou a todo o reino que a verdadeira inteligência não mora apenas na cabeça.

Ela também vive no coração, na criatividade e na capacidade de enxergar possibilidades onde ninguém mais consegue ver.

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